sábado, 27 de julho de 2013

4,1,2. 4,1,2. 4,1,2.


Ah, que lindo domingo de sol. Domingo? Não, não, hoje é sábado. Ainda é sábado.
Nesse lindo sábado de sol, analisando do alto o que se passa lá embaixo. O sol está lindo, mas o dia continua gelado. Dentro de casa, não sei quantos graus, mas faz frio, muito frio. Aqui na varanda a temperatura parece amena. Amena pra quem? Risos ao lembrar que, apesar de me sentir em ótima temperatura, minhas peças de roupa estão dobradas. Dobradas, não de arrumadas, dobradas da matemática, o dobro. Duas calças, duas blusas, duas meias, não, péra, meias? Duas? Não, são mais. Bem mais, certeza.
Meros devaneios bobos de quem não tem nada mais a fazer, senão sentar e ver os carros passando na rua, a beleza das roseiras do outro lado do muro. Não ter nada o que fazer? É, bem, não é bem assim. De todas as tarefas, uma já fiz. O casaco. Ahh o casaco preto. Maldito seja você que lavou o casaco preto junto com a toalha de banho. Mandita seja minha preguiça. A mãe avisou. Filha, as roupas pretas você lava separado. Tudo bem, mãe, a preguiça foi maior. Eu sabia que ia ficar com pelos. Tudo bem, os tiro com fita crepe quando der vontade. Ficou limpo, ficou novo. Meia horinha de serviço nesse sábado vazio. É, nem tão vazio. Deveria estar limpando o quarto. Se minha mãe estivesse aqui já estaria gritando pra eu arrumar o quarto. Roupas e cobertas pra todo lado. Mas não, hoje a mãe não está. Hoje posso arrumar quando quiser. Ou quando a situação ficar insustentável. Mas hoje a mãe não está.
Ainda bem que a mãe não está. A casa está vazia e silenciosa. O meu vazio silencioso. Cada coisa está no lugar onde eu deixei. Tudo bem, talvez não seja o lugar ideal, mas foi onde eu deixei. A mãe não está. A casa está vazia. O meu vazio, o meu silencio. Só o grito da minha personalidade ecoa nas paredes. A casa está vazia. E silenciosa.
Se a mãe estivesse em casa, hoje seria dia de lavar a cozinha. Lavar. Com água e sabão. A mãe não pede, mas eu ajudo. Acho meu dever. Acho minha obrigação. Maldito moralismo que me faz por os pés na água gelada. Frio. Pé gelado. Água gelada. Mas a mãe não está. A cozinha está limpa. Ainda bem, porque a água está gelada.
Eu ouço, eu vejo, eu sinto. Não, talvez não sinta. Sim, eu sinto. Sinto que estou sozinha. Sou um ponto que ninguém nota. Mas eu ouço, eu vejo. Eu ouço pessoas jogando e torcendo. Qual seria o jogo hoje? Futebol. Talvez vôlei. Ou o basquete. Não, o basquete não, tiraram as cestas na reforma. Ou transferiram pra outra quadra? Não sei. Não vi. Deveria ver. É tão fácil, tão rápido, tão perto. Só uma espiadinha. Mas não vi. Não me interessa tanto, eu não gosto de basquete. Mas nossos times de outrora foram grandes campeões. A cesta deve tá lá. Ou não. Sei lá.
Mas eu vejo. Do outro lado da rua, do outro lado do muro, eu vejo. Portão aberto, janela fechada. Jardim feliz. É, ele é bagunçado, mas é feliz. Deve ser pelas rosas. Um pinheiro, duas palmeiras, dois mamões. Ou seria mamãos? Não, são mamões, não interessa, são mamoeiros, planta que dá o fruto mamão. Mamão no jardim. Acho que nasceu sozinho. Obra do acaso, ou de um passarinho. Meu interior ainda tem passarinhos. Há também arbustos. Bonitos arbustos. E rosas. Muitas rosas. Rosas vermelhas, rosas rosas, rosas... não, só vermelhas e cor-de-rosa. As rosas são lindas. Será que cheiram? Eu amo rosas. Ainda terei um canteiro. Uma coleção de rosas.
A mãe disse que me daria um canteiro na reforma. A reforma se foi, e o canteiro não surgiu. O canto continua com cimento. E vasos. A gente é tonto né? Põe cimento em cima da terra, ai põe terra dentro do vaso – de cimento – e põe o vaso onde era pra ser um canteiro. A gente é tonto.
Mas ainda tem um canteiro. Ele ficou maior na reforma. Agora tem novas palmeiras. Novos pinheiros. Ah e tem o meu pinheiro. Ele parece se recuperar. Ele vai viver. Sei que vai, peço a ele isso todos os dias. É meu amigo. Ele olha pra mim e sorri. Eu sei que sorri. Eu sinto seu sorriso. Agora ele tem filhos. São adotivos, mas são filhos.
Uma colherada do chocolatequentemingau que eu fiz. Muito grosso pra ser chocolate quente. Muito ralo pra ser mingau. É pra comer de colher. Pra isso que eu fiz. O que importa é o sabor. E o pingo dele no moletom limpo. Eu e minha mania. Manias as vezes atrapalham. Não muito, mas atrapalham. Não passo a colher cheia na borda da caneca pra não sujar. Não gosto de ver o chocolate sujando a borda branca. A borda está limpa. E o moletom está sujo.
E esse texto está simplista. Como a minha alma hoje.
Verdades. Fatos. Inocentes. Impressões jogadas numa folha de papel.
Saudações.

Um comentário:

Rafael Steffens disse...

que gostoso ler isso.